GUILHERME ARANTES


UMA BIOGRAFIA MUITO ALÉM DO TEMPO

 

(me desculpem os verbos em tempos diversos , mas isto foi escrito em várias fases… atravessa várias décadas)

Nasci ao meio-dia e quinze do dia 28 de Julho de 1953, em São Paulo, na Pro Matre (bairro da Bela Vista). Leão, com ascendente em Escorpião e a Lua sozinha e carente em Peixes.Fui criado em Santo Amaro (que eu chamo de Santo Amaro da Poluição – antítese da Santo Amaro da Purificação de Caetano, Bethânia e sua talentosa família). Morava numa boa casa de arquitetura moderna pra época – mas nada de esnobe – meus pais sempre foram low-profile, muito trabalhadores. Dr. Gelson, médico-cirurgião, e Dona Hebe, bibliotecária e tradutora foram pais rigorosos, em especial com o único filho homem.

Tenho duas irmãs, a Ana Cristina, mais velha que eu um ano e dois meses, professora de Educação Física, e a Heloisa, mais nova que eu nove anos, médica. Estudei no primário no Alberto Conte, em Santo Amaro, e o ginásio no legendário Vocacional do Brooklyn.

Com o AI-5 houve uma intervenção na escola, e minha mãe preferiu que eu fosse para o Roosevelt, na Liberdade, terminar o ginásio e fazer o Colegial. No segundo ano do colegial fui convidado pelo diretor a sair, pois estava muito delinqüente. Guerras de ovos, brigas, desordens aconteciam todos os dias…

Realmente, exceto no primário, quando tirei notas altas (evidente, D. Hebe fazia as lições junto), nunca fui aluno brilhante porque era palhaço demais em todas as classes. Peitava professores, vivia dando gargalhadas altas e sendo expulso da sala, sempre muito palhaço, mas no final me dava bem estudando um ano em um mês.

De piano, fui péssimo aluno, jamais passei das Invenções a duas vozes de Bach, que aliás adoro. Em Santo Amaro, tive como professora particular a Dona Joanita e depois, já morando no Jardim Paulista, tive outros dois professores, o Helio e o Gorga, todos esforçados, mas era inútil – eu era dispersivo e indisciplinado.

Uma vez, tirei de ouvido uma peça difícil de Haendel, o Harmonious Blacksmith, apenas escutando o vinil com o cravo da Wanda Landowska, e fui, cara-de-pau, fazer de conta que havia estudado pela partitura. D. Joanita percebeu que na mudança de página eu continuei a tocar, sem virar a folha. Pronto. Fui desmascarado no ato – me lembro disso com carinho. Eu passava as férias em Santos, Praia Grande, Campos do Jordão, mas principalmente em Araraquara, com minha querida avó Iracema e meu avô Luiz, advogado do IAPI.

Foi uma infância feliz, com muito sorvete, cinema, soltando pipa e jogando bola (meio perna de pau) – era bom de carrinho de rolimã. Meu pai teve um papel determinante na minha formação musical, tocando seu violão brasileiro (tocava super bem, numa linguagem do regional tradicional, com sambas, sambas-canção, chorinhos). Também foi ele quem sempre levou discos pra casa, da bossa-nova aos Beatles, constantemente antenado nas novidades. Pois não fomos dos primeiros no bairro a ter um Hi Fi – uma vitrola estereofônica, a última palavra…

Aos seis anos eu já tocava um cavaquinho, presente de um Natal, e mais tarde um bandolim. Depois fui encaminhado por meus pais a estudar piano, por volta dos seis anos, quando eles compraram um Kastner de armário, muito bom por sinal, fabricado pela Pianofatura Paulista, com máquina alemã, o que seria mais tarde chamado de Fritz Dobbert… A música sempre soou dentro de minha cabeça, como se houvesse um radinho ali sempre ligado. Talvez por isso em nunca consegui (e ainda não consigo) ficar ouvindo muitos discos. Menino, eu ficava ouvindo música e pensando como deveria ser bom ser aquela figura oculta, o COMPOSITOR, aquele que bola a música, que gera o sinal inicial, o fundamento…

Claro que alguns discos foram exaustivamente ouvidos ao longo da minha vida, e eu enumeraria aqui: o vinil Chega de Saudade, de João Gilberto, com Bim Bom do outro lado, é o campeão absoluto; Edu Lobo com o Samba Trio, Baden Powell e tantos outros da Gravadora Elenco de Aloysio de Oliveira; Elis e Tom (aliás o Tom é meu Rei absolutíssimo), muito Taiguara, muito Chico, Caetano, Gil, muito Milton, Lô Borges e o maravilhoso movimento de Minas. Dos internacionais, Glenn Miller, Ray Charles, Beatles, Stones, Santana, Steppenwolf, The Who, Yes, Genesis, Emerson, Lake & Palmer, Clapton, Faces com Rod Stewart, Gentle Giant, Hendrix, Vangelis solo e em seu Aphrodide´s Child e o grupo progressivo italiano Le Orme são os que mais me recordo. A década de 60 foi riquíssima, é impossível não estar aqui sendo injusto com alguma coisa…

Estudando no Roosevelt, pra onde eu ia de bonde, pegava na Pamplona, ia pela Paulista, entre os casarões, atravessava o Paraiso dos árabes e das lojas de sapatos, e descia a Vergueiro até a Liberdade.

Não existia nem a 23 de Maio, onde havia um vale com um riacho no meio – tinha a fábrica de chocolates da Söhnksen e a da Brahma, exalando seu cheiro de malte.

Dos anos 60, lembro-me dos festivais e sua sensação maravilhosa do novo. Meu tio Cyro Lima Arantes trabalhava na TV Record, junto ao Marcos Lázaro, e sempre pintavam convites para os Finos da Bossa, Jovem Guarda, etc. Fui um rapaz de sorte, vi com meus próprios olhos o surgimento de toda uma geração de ouro da MPB, todos novinhos, universitários tímidos no palco, sem saber bem o que fazer com a fama – que lindo – quanta diferença se a gente comparar com os ídolos de hoje, empresários milionários com sua eficiência específica, previsível, e muitas vezes corruptora, com a ascensão do jabá. Acho que ocorreu uma mudança na cultura de massa, em direção ao funcional, à esperteza marqueteira, onde tudo parece compartimentado e bem comportado. Enfim, cada tempo é de um jeito – e naquela época havia muita utopia no ar – as pessoas estavam juntas pensando diferente – hoje cada um está na sua, mas todo mundo pensa igual.

Lembro-me bem do Day-After do festival onde cantaram Caetano (Alegria Alegria, uma revelação total), Chico (Roda Viva), Vandré (Disparada), O Cantador com Elis, Sergio Ricardo e sua atitude maravilhosa de incorformismo, Gil e Os Mutantes com Domingo no Parque, etc.

Na escola, aliás, no Brasil inteiro, as discussões e as divergências de opinião colocavam a Música Popular como o grande espaço do debate existencial. Naqueles anos, turbulentamente belos, eu fiquei adolescente, e montei meu primeiro conjunto com o pessoal da escola.

Assim, conheci o Chicão, o Pudim, o Michelin, o Kadú (Moliterno) e o Capê. O Polissonante na verdade não passou muito dos ensaios e de algumas apresentações no Tênis Clube e no Círculo Militar, onde era o máximo tocar. A gente vivia zoando no ônibus elétrico pela Aclimação, soltando sacos de bolinhas de gude no chão, e nos ensaios do conjunto eu brilhava porque tirava tudo de ouvido na hora, era o mais novinho da turma, as garotas curtiam com a minha cara de bebezão (cheia de espinhas, por uns 6 anos de inesquecível angústia).

Na Aclimação, conheci o pessoal do Lee Jackson (antigo Amebha), que viria a ser um celeiro de executivos do mundo do disco – Marcos Maynard, Claudio Condé, Sergio Lopes, Maluly, Marco Bissi.

A gente se cruzaria bem mais tarde na CBS, Polygram, etc. Nesse meio tempo, estreei como músico tocando com o Jorge Mautner, por ter amizade com os geniais Diogenes Burani, baterista, e Rodolfo Grani, baixista, que integravam a banda de Jorge, junto com Tico Terpins (do Joelho de Porco) e o maravilhoso Carneiro, Nelson Jacobina, de quem tenho carinhosa lembrança (e que tem algum parentesco com a inigualável Maysa, o que acho um privilégio que explica o seu fascínio).

Fui apresentado a essa turma pelo Solano Ribeiro, meu primo, e com apoio do maestro-mago Rogério Duprat, que sempre foi meu incentivador. Tentei por um tempo fazer jingles de publicidade, na Pauta, na Sonotec (onde me lembro ter assistido pessoalmente ao horrível incêndio do Edifício Joelma) e mais tarde na Vice-Versa, dos amigos Luis Arruda Botelho, Sá e Guarabyra. Com o final do científico, eu exilado no Bandeirantes, prestei por prestar vestibular para Arquitetura – na verdade, por sugestão da minha mãe, afinal era um curso famoso mais por causa do Chico, do Maranhão, e do clima musical que o cercava. Claro que não passei, minha especialidade na época era o bilhar, praticado assiduamente na velha Praça João Mendes.

Fiquei de segunda época no Bandeirantes precisando de 8,5 de Física, 7,5 de Química e 9,5 de Matemática, com o famigerado Cattony – minha média anual foi 0,5!!! Uma vergonha… Na classe, todos eram homens maduros, e eu era um moleque tardio e perdido.

Na segunda época, em prova oral, o Cattony olhou pra mim, terminada a prova e falou: Eu não vou dar 10 porque eu só dou essa nota para Leibnitz. Deu 9,8 e eu me formei raspando, mas convencidíssimo de que tudo podia. Já no Cursinho, o Anglo, eu estava arrestado pelo torvelinho moral do Vestibular (por haver fracassado na primeira tentativa) e ralei brilhantemente naquela fábrica de salsicha – todos os cursinhos são uma espécie de igreja de lavagem cerebral. Acabei passando no Mackenzie e na tão sonhada FAU, da USP.

Optei pela FAU, e gostei de cara da escola, fiz muitos amigos, e gostava muito das tertúlias musicais na casa do Bicalho, que morava perto da USP. Acho que o curso era bom demais pra mim …

Já no segundo ano eu estava de novo distante, com a cabeça em outro chamado, não passei do primeiro semestre em várias matérias básicas. Conheci o Claudio Lucci, brilhante violonista, e com ele fui procurar um velho amigo, o Diógenes, o melhor baterista que ví tocar em toda minha vida. A gente formou então o Moto Perpétuo, uma banda híbrida de progressivo (a moda na época) com a MPB, principalmente mineira, influência do Clube da Esquina.

Essa identificação com os mineiros fez de mim quase que um filho bastardo desse movimento, tal a importância, principalmente do Lô Borges, e, claro, do Milton na minha maneira de compor.

Procurei um empresário que estava fazendo sucesso na época, o Moracy do Val, que administrava os Secos e Molhados, recém-estourados na mídia. Nessa época, fiz a amizade com o Juracy Almeida, que era secretário do Moracy e se tornou meu irmãozinho que me acompanha até hoje nas peripécias – acho até que ele seria mais apropriado do que eu pra contar essa história.

O Moto logo gravou o primeiro disco, meio precário, com produção do Pena Smith, legendário talento, fazendo milagres no estúdio da Sonima (em São Paulo), de apenas oito canais. Na banda entraram o Gerson Tatini, baixo, o Egydio Conde, guitarrista, e a gente se enfurnou numa casa no Brás, para ensaiar. Os meus colegas, sempre brigando comigo por causa da minha precipitação de ter aceito fazer o precioso disco num estúdio de poucos canais e em condições bem diferentes daquelas que eles tinham ouvido falar sobre o Yes, etc.

Um dia o Gerson falou pra mim: Você não ouve disco, saca? Ele era o mais radical nessa formatação para estar de acordo com uma época, e eu respondi, malcriado e injusto Não ouço disco porque nasci pra fazer disco, saca?

Em Iacanga, festival de Águas Claras, fomos ser chacota da galera boçal que gritava: Toca Rock!!. Ali se apresentaram O Terço, Som Nosso de Cada Dia, etc. Eu nunca gostei do lado escatológico do movimento Hippie – o fedor, a sujeira dos banheiros, a comida comunitária, os bichos grilos em profusão, num movimento já esvaziado e nostálgico.

Cedo percebi a estupidez das multidões, a falsidade do tributo que cada época nos obriga a pagar… Aquele grito Toca Rock!! ficou sendo emblemático para mim. Cada período cobraria seu tributo, seja nos cabelos e nas roupas, nas bandas pretensiosas, no discurso político, mais tarde o bate estaca da discoteca, do desbunde do pó, até o pragmatismo eficiente dos Axés, dos rodeios, do Dance Music com seus DJs, MCs e Promoters, tudo me soa como se o mundo houvesse curralizado a cultura de massa. Também, de que vale essa cultura?

Tudo me causa repulsa, sou uma carta fora do baralho, desde Iacanga até hoje olho o mundo com estranheza e tenho muito orgulho disso. Logo vi que eu não servia pra me encaixar naquilo, mas enfim, tinha o fardo daquela banda e seus problemas pra carregar. Aquilo durou pouco tempo. No final de 75 resolvi seguir o meu destino de cantor popular e fui procurar a Som Livre, na Rua Augusta, em frente ao atual Columbia. Na época, as baladas pianísticas de Elton John estavam na moda, eu estava com sorte.

O Otávio Augusto, o Guto Graça Mello e o João Araújo resolveram me lançar como tema da novela das 7 (Anjo Mau), e aí sim começaria de verdade a minha história.

Devo tudo a essa oportunidade, que em seguida me abriu os caminhos para o primeiro LP, em meados de 1976. Não que Meu mundo e Nada mais tenha estourado de cara. Demorou pra tocar no rádio. Eu me lembro que no começo só tocava de madrugada, na antiga Radio Excelsior, mas era uma emoção me ouvir no mesmo velho radinho de pilha debaixo do travesseiro (onde tantos jogos do Santos de Pelé foram acompanhados na adolescência, com inesquecível narração de Fiori Gigliotti). Meu mundo e Nada Mais, composta em 69, viria a tocar 530 vezes na novela, que eu contei, assistindo com a minha avó Iracema, que na época morava no Lar Santanna. Era um massacre, virei um sucesso instantâneo…

Havia na época um outro compositor, gaúcho, muito bom por sinal, chamado Hermes Aquino, que cantava Nuvem Passageira – uma canção linda e original que também fazia um imenso sucesso -, e a gente ficou sendo muito confundido, as pessoas achando que eu era gaúcho, etc. Daí veio, também, a mania, principalmente entre os gaúchos, de me chamar de Guilhermes – acho que é uma mistura de Guilherme com Hermes…

Era engraçado ser reconhecido na rua: Olha aquele cara do Anjo Mau!!! Eu não sabia o que era isso, vinha de um meio universitário diametralmente oposto ao popular. Uma vez, fui cantar no Show de Calouros do Silvio Santos, onde o Zé Fernandes me deu 4,5 (o máximo era 5), e o Brasil inteiro comentou aquilo…

Ele deu 4,5 porque a letra dizia só sobraram restos e isso fazia cacófato com soçobraram restos… Grande descoberta!! Aí, eu perguntei se ele não conhecia esse recurso da poesia modernista… Silvio interrompeu dizendo: Não, não, neste quadro o cantor não pode falar….

Eu disse que respeitava o Zé Fernandes por ser um pianista de tangos, que eu gostava… Ele ficou surpreso com o fato de eu o reconhecer artista… No final do programa, havia um batalhão de fãs querendo me agarrar, eu saí correndo pela Praça Marechal Deodoro, as fãs gritando atrás, foi a coisa mais ridícula da minha parte…

Penso mesmo que eu só fui aceito tão rápido porque as baladas do Elton John eram a bola da vez na mídia. Há aqui uma curiosidade – Elton lançou naquele mesmo ano de 76 a canção Candle in the wind, que voltaria mais tarde, por ocasião da morte de Diana, ao mesmo tempo em que Meu mundo e nada mais voltaria a ser gravada, para ser outra vez tema do Anjo Mau. Coincidências… Porém, como influência Elton não foi tão importante quanto se pensa porque eu já estava formado de cabeça e compunha daquele jeito há muitos anos.

Meu mundo e nada mais tinha sido composta em 1969, quando eu tinha 16 anos de idade… Diria que eu e ele fomos contemporâneos, com a pequena diferença de ele ter nascido numa certa ilha, e eu num certo país tropical… Claro que gostava e gosto do talento dele, e me vali das semelhanças óbvias. A primeira coisa que comprei com a minguada grana do sucesso foi um Fusca vermelho, e logo me casei com a Márcia, colega da FAU, e fomos morar na Vila Mariana. Tivemos uma filha, Marietta, nascida em 1980, que hoje e sempre é minha amiga e confidente.

Já consolidado como cantor e compositor, passei a cruzar com várias pessoas do meio, sendo as mais lembradas o Okky de Souza, da revista Pop, que hoje trabalha na Veja, e é sempre um velho novo amigo, e o André Midani, da Warner, de quem aprendi a gostar, também, apesar de ser controvertido – muita gente tem várias opiniões sobre os poderosos. O André foi muito importante para o Pop nacional, com seus questionamentos, e principalmente com seus investimentos na área jovem. Na sua cartilha rezava que um grande artista tem de ter um grande drama…

Fui achar um drama no meu relacionamento com meus pais… Quer algo mais prosaico – quem não tem problema com mãe? Acho isso uma bobagem, hoje, mas que tem a ver, tem… Se parar pra pensar o que é a mitificação senão algo mórbido? São os dramas que vendem… Muitas músicas nasceram desse conceito.

Devidamente encantado com a proposta inovadora da Warner, deixei a Som Livre, para justíssimo desespero e raiva do João Araújo e daquele pessoal que me havia revelado ao público, com tanto empenho e esperanças… Na verdade, hoje posso avaliar o carinho que tinham por mim na Som Livre, penso que se eu soubesse negociar, fosse mais maduro, na época, poderia ter sido bem mais feliz em minhas escolhas…

Mas acho que a televisão estava à procura de outro tipo de ídolo, que reunisse talentos que eu não tinha (como o de ator), e nisso o Fábio Jr foi uma grande revelação – nessa época da minha saída ele deslanchava para um grande sucesso, e eu mergulhei na minha primeira e profunda hibernação. Enfim, o Midani teve o mérito de investir em mim durante cinco anos, sem resultado algum – a chamada síndrome do segundo disco, no meu caso, foi do terceiro, do quarto e do quinto.

Fui escalado para pertencer ao Cast do Liminha, que se esforçou mas não conseguiu tirar o caldo pop de mim. A única canção que realmente ficou desse período foi Êxtase. A gravadora, voltada à proposta pop, tendo à frente as Frenéticas e A Cor do Som, não conseguia me fazer vender, havia algo de errado.

No segundo semestre de 80, a Elis me ligou, pedindo música, e eu tremi na base… Propus fazer um Hit para ela, e duas semanas depois apareci com Aprendendo a Jogar, que foi prontamente gravada e estourou… Eu estava salvo, num momento delicado em que a Warner estava me dispensando. Elis gravou também Só Deus é quem Sabe, um bolero lindo, e tenho muita gratidão pelo César Camargo Mariano, que me deu a maior força com seu talento e sensibilidade.

Elis foi muito atenciosa. Havia sempre um justificável séqüito de fascinados ao seu redor, mas aos poucos percebi que comigo a atenção era especial. Num jantar no Bar Lagoa, Rio, ela escreveu num guardanapo de papel que preferia estar longe deste insensato mundo, com você, e me passou por baixo da mesa. Fiquei em pânico, não sabia o que fazer.

Meu casamento com Márcia estava meio balançado, terminou de balançar… Lembro-me de, na época, ficar vagando pela Vila Mariana, sem rumo. Algo estava por acontecer, eu precisava me separar, mas tudo me assustava. Com Elis me lembro de uma viagem de Toyota Bandeirante pela Rio-Santos com uma parada em Ubatuba. Elis viajava com Marisa Fossa, sua vocalista e amiga-confidente naquele momento. De noite, na Praia das Toninhas, bati um papo com ela, e chorei pela emoção de conhecê-la, mesmo de longe, muito, muito bem.

Ela era muito carente, eu também, e a gente logo travou uma carinhosa amizade. Pude acompanhar sua depressiva frustração quando Herbie Hancock não cumpriu sua proposta de produzí-la nos EUA… Acho que esse era seu grande desafio – ser uma estrela internacional (coisa mais do que merecida, mas nunca realmente realizada).

Com o tempo acabei me afastando dela, só recebi um cartão no fim do ano de 1991, feito pelo Elifas Andreatto, pouco antes dela deixar este mundo insensato. Sua partida foi muito dolorosa para quem a conheceu. Onde estaria Elis, hoje? O que ela estaria fazendo? Cantando melhor que qualquer um, decerto haveria de estar inovando, rompendo…

Em 81, eu estava marcado para ser dispensado do cast da gravadora quando o Guti Carvalho me levou para o seu selo, na mesma WEA. Lançamos Deixa Chover em janeiro de 1981, era tema da Beth Faria em Baila Comigo. Na mesma sessão de estúdio, com o meu amigo Fernando Adour na inspirada produção, gravamos Planeta Água, música que entraria logo a seguir no festival MPB Shell 81, no segundo semestre.

Nem preciso contar o que aconteceu, com o segundo lugar consagrador que me pôs muito mais em evidência do que se houvesse ganhado o óbvio primeiro lugar.

Lembro-me da Luiza grávida do Gabriel, meu segundo filho, fazendo parte da Gang 90 e Absurdettes, no lançamento da música Perdidos na Selva, também minha – em parceria com o genial Julio Barroso. Por que essa autoria nunca me foi creditada?

Como não era permitido concorrer com duas no Festival (eu já tinha Planeta Água), falei para o Julio assinar sozinho o contrato da edição – a idéia era muito mais dele que minha, nem esquentei. O caso é que a música virou um clássico, e depois, com a morte de Julio e de sua irmã, a querida Denise, ficaria chato eu reclamar a autoria, mas fica aqui registrado… O convívio com Julio Barroso e sua turma me foi muito benéfico, com sua cultura pop, fiquei arejado e alegre nas canções.

Meu disco a seguir, de 82, Lance Legal, foi estouro instantâneo de rádio. Tinha Lance Legal, O melhor vai começar, Prelúdio, Todo mês de maio, Luz verde, mas ainda não consegui dessa vez vender o que se esperava, fiquei a fim de sair da WEA e encontrei a compreensão do Heleno de Oliveira. Tínhamos apostado que, se não vendêssemos nem mesmo 30.000 cópias, eu deveria procurar outro caminho…

Voltei para a Sigla, mais para corrigir minhas pendências com o João Araujo, de quem no fundo sempre gostei muito. Fiz ali um disco irregular, o Ligação, contendo o hit Pedacinhos, Graffitti, Grávida e outras. Fui morar com Luiza no Alto da Lapa e ali fiz várias canções para especiais infantis, como o Pirlimpimpim (Lindo Balão Azul), Plunct Plact Zum (Brincar de Viver – inesquecível na voz de Maria Bethânia) e o Pirlimpimpim 2, todo em parceria com o saudoso Paulo Leminski, talentosíssimo poeta curitibano.

Eu estava inspirado para o mercado infantil, tendo já dois filhos nenês – Marietta e Gabriel, e já encomendando o terceiro, Pedro. Fiz por essa época músicas com o Nelsinho, para os filmes Menino do Rio e Garota Dourada – para este último, fiz a trilha sonora e participei, cantando, nas Noites Cariocas. Também aparecem no filme a Marina e o Ritchie.

Com a morte misteriosa de Julio Barroso, em 84, eu e a Luiza ficamos muito abalados e resolvemos nos mudar para o Rio, em busca de um astral mais arejado, o que foi uma boa também pra minha música. Na seqüência, seria contratado pela CBS, atual Sony, e isso, seguramente, foi um divisor de águas… Até ali, havia brincado de vender disco.

Na CBS, tive o acompanhamento do diretor artístico Marcos Maynard, que sempre foi meu fã (e vice-versa) e que me queria no cast. Eram anos de glória do Pop nacional, incluindo-se aqui os grupos RPM, Metrô, Radio Táxi, Baby, Pepeu, Ritchie, e até o clássico Djavan, e eu entrei como faca na manteiga do Pop nacional.

Olhos vermelhos foi feita na New York pós Júlio Barroso. Cheia de Charme foi feita nas praias do Rio, olhando as cariocas, mesmo as mães, as casadas, as avós, todas sempre charmosas em seu desleixo boa-praça… Uma série de canções arejadas, plenas de mar e de sol, como Gaivotas, Oceano, foram saindo…

No segundo trabalho para a CBS, Calor, pude aprofundar a parceria com Nelsinho, agora meu vizinho no Posto 6. Numa noite de chuva torrencial, fiz uma melodia que eu acho especialíssima, e fui, de cueca samba-canção, descalço, correndo para o apartamento dele, pra que ele ouvisse. Poucos dias depois, estava feita Coisas do Brasil. Esse trabalho seria produzido por um americano, o Ronnie Foster, que havia feito o legendário disco Luz do Djavan. Foi um sucesso enorme, era a bola da vez o new bossa inglês, com Matt Bianco, Everything But the Girl e Sade Adu nas paradas.

Em 86, morando no Rio, e especialmente em Copacabana, pude viver uma fase fértil e de explosão de popularidade. A fertilidade se manifestou também com a vinda do quarto filho, Tiago, o único carioca, que nasceu em 86, tendo como padrinho de batismo o amigão Nelsinho Motta, sempre carinhoso comigo e com Luiza.

Foram os anos de 85 e 87 muito bons para o pop rock nacional, era a nova era dos mega shows tipo Rock in Rio e Hollywood Rock. Anos da revelação de Cazuza e o Barão, Paralamas, Legião, Lulu, etc. Outsider assumido, eu sempre percebi que era frágil o sucesso, em especial o meu, não-alinhado com movimentos e patotas, não-carioca da Zona Sul, não guitarrista, não roqueiro, ou como diz Belchior, sem parentes importantes e vindo do interior. O desdém da crítica advinha, também, muito em razão do meu desdém para com a mídia. Nunca fui bom diplomata, socialmente sou meio bicho-do-mato…

Mas por essa época, começaram a não mais me ignorar, tiveram de dar o braço a torcer. Os espaços começaram a ficar generosos… Lembro muito emocionado que até o Tom Jobim, uma vez, me chamou num canto na casa do Chico Buarque (era uma reunião de Direito Autoral) pra dizer que gostava de Coisas do Brasil, pra eu ir nessa onda da bossa, que era natural, e que ele abençoava… Quem esqueceria uma palavra do Tom? No ano seguinte, compus com o Nelsinho Marina no Ar, uma singela homenagem à cantora. Fiz apenas a música, a idéia da letra foi coisa do meu parceiro delirante. Mas endossei de cara, a Marina sempre foi a coisa mais talentosa, bela e única.

Gravei o álbum seguinte na Califórnia, com o Ronnie Foster de novo na produção, em agosto de 87. Outra música dessa safra foi Um dia, um adeus, que foi parte da trilha de Mandala, por obra do Max Pierre, talentoso A & R que despontava. Fez muito sucesso, apesar de ser só piano, cordas e voz, uma inovação no formato radiofônico.

O CD seguinte foi o Romances Modernos, sob produção excelente do Max Pierre, um disco muito bom, com faixas como Muito Diferente, Vôo (S. Conrado), Bom Humor e Raça de Heróis (tema da novela Que Rei Sou Eu?).

Eu já estava tocando bem em rádio havia uns 3 anos. E já batia a preocupação e a pergunta: Até quando pode durar um ciclo desses?. Os ciclos de sucesso me pareciam claros, agora. Entrávamos nos anos 90, de Collor, sertanejos, axés, dance music, etc. Eu mergulhei num relativo anonimato, fazendo meus trabalhos como antes, mas sem o mesmo espaço na mídia.

Lembro-me bem ter recebido Chitão e Xororó no camarim, em 87, no Ginásio do Guarani, em Campinas, eles pesquisando como é que se faz o pop, em termos de som e luz, era toda uma técnica nova para eles… E como aprenderam…

Agora, eu estava só, de novo. Mas quem se importava? Eles, sertanejos, axés, dances, todos estavam com a corda toda. Como reagir? Resolvi ter paciência para a longevidade, a conselho de um mestre, Jorge Ben Jor, que num vôo da ponte aérea me explicou como é que a MPB funciona – pouquíssimo antes do estouro de W Brasil.

Fiz um disco chamado Pão, irregular, mas com algumas canções belas, como a faixa-título, reflexiva, sobre os filhos e meu novo momento como pai. Tinha também a faixa Babel, uma incursão pelo Dance Music. Fui muito criticado na época, pelo excesso de teclados eletrônicos. Realmente eu estava numa fase de transição.

Por essa época eu estava bem colocado no Show Business, lotando Palace, Canecão, Olympia, todas as temporadas. Fizemos um disco duplo ao vivo, Meu mundo e Tudo mais, mas que não ficou sonoramente muito bem finalizado, embora o show fosse emocionante.

O show em questão era dirigido pelo Jorge Fernando, acho que foi um dos melhores que fiz… Naquele ano, fui para a EMI Odeon, que tinha um Cast de respeito. Era um tempo de mudanças na mídia, o que tinha vigorado até então era passado, agora havia a realidade de uma mídia multifacetada, principalmente com a entrada da MTV, um canal de alcance menor, em termos de broadcast, mas de alcance profundo, em termos de formação de imagem. Os clipes viraram coisa séria…

Na Odeon, eu mesmo produzi o disco Crescente, um dos melhores na minha opinião, com a participação do Barão Vermelho e do Luis Sergio Carlini na faixa Taça de Veneno, e de Sergio Dias em várias guitarras. O trabalho foi primorosamente gravado e mixado no estúdio Mosh, sob supervisão do amigo Oswaldo Mallagutti. Até o corte das matrizes foi feito em Nova York, no Masterdisk. Tinha também a música Sob o Efeito de um Olhar, tema da novela Vamp, uma bela canção que estourou. Outras faixas importantes foram Sonho Latino e Ready for Love, outra parceria com Nelsinho Motta. Para o lançamento do CD, foi produzido um clip sob direção do Flavio Colker, que ficou muito bonito, até concorreu ao primeiro MTV Awards.

Pelas mãos do Roberto Augusto, eu voltei para a Sony, em 1993, para gravar o CD Castelos, que tinha as músicas Lágrima de uma mulher, O Lado prático do amor, Um pouco mais, O que há de Bom , Alguém , e a versão da obra-prima The Secret Life of Plants, de Stevie Wonder, que ficou O Espírito Secreto de uma Vida, com a preciosa participação de Gilberto Gil. Agradou-me muito produzi-lo, porque tinha a minha cara em cada detalhe.

Foi nessa época que me separei de Luiza e voltei a morar em São Paulo. Foi um recomeço difícil, com muitos desdobramentos sobre a minha música, que ficou bastante reflexiva e meio tristonha. São Paulo também não era mais aquela cidade que eu tinha vivido antes de me casar…

Fui então convidado a assinar com a Polygram, onde estava o Marcos Maynard na presidência. O primeiro disco na Polygram foi um projeto que eu tinha latente há tempos, de versões de músicas fundamentais pra mim, todas do final dos anos 60 e início dos anos 70, como Bridge over Troubled Water, Killing me Softy, The Poor side of Town, Its too late, Traces, Youre a Lady (Im a Man) e outras.

Os arranjos seriam do maestro inglês Graham Preskett, que havia feito para a Polygram o CD de Maria Bethânia com canções de Roberto Carlos. Essa produção, a cargo do velho amigo Guto Graça Mello, foi realizada em Londres, com a participação da secção de cordas da Royal Phyllarmonic, e ficou primorosa, com mixagens em Los Angeles, por Moog Canazio. Foi um bom produto, que teve boa receptividade, embora fugisse da minha linha habitual de compositor.

O trabalho seguinte foi Outras Cores, uma retomada ao pop com canções como Hora de partir o coração, Marca de uma estrela, Uma espécie de irmão (que foi tema da novela Salsa e Merengue), Sentimentos vão ficar, e uma parceria com Nando Reis – Em suas mãos.

Fui novamente produzido por Ronnie Foster, na Califórnia, tendo eu permanecido 75 dias em Woodland Hills. Esse trabalho também ficou marcado como a minha estréia como videomaker amador, quando rodei e co-dirigi junto com Rubens Velloso o clip de Marca de uma estrela, para a MTV, com a participação da maravilhosa Beth Prado. Outro clip realizado por mim para esse CD foi Meteoros, ambientado em Pernambuco e no Observatório de Capricórnio, em Campinas.

Em 1997, fui convidado a fazer um disco acústico, para a Globo-Polydor, com uma revisão sonora e acústica de meus principais hits, incluindo duas inéditas, Mágica em Mim e Quando o amor falou mais alto. Resultou num bom CD, sem teclados eletrônicos, só com piano, violão, baixo, bateria, percussão, alguns metais, cordas e vocais.

Esse trabalho marcou também a estréia de meu novo estúdio, no Itaim-Bibi, em São Paulo, pela primeira vez um local preparado para gravações mais profissionais. Antes dele, todos os CDs foram apenas estruturados em casa, mas integralmente realizados em estúdios de aluguel, dependendo de alocação de verbas, do gosto dos produtores e sujeitos a horários pré- estabelecidos.

A proposta agora era que nesse lugar eu pudesse desenvolver, não só meus CDs de carreira, mas também outros formatos de música, instrumental, trilhas para cinema e teatro (que adoraria fazer) e, esporadicamente, publicidade. Sei que um dia vou produzir outros artistas também.

A existência de uma infra-estrutura pequena, mas adequada me permitiria gravar primorosamente não só com teclados, mas também com um Steinway de concerto com Midi Óptico, além de poder registrar quaisquer instrumentos acústicos.

Em 1998 nasceu Paola, minha filhinha caçula, que eu iria mais tarde criar na Bahia… Mas eu nem podia imaginar as aventuras que estavam por acontecer…

Lancei um novo CD em 99 pela Playarte, e mais uma vez pude constatar o ambiente anômalo da música popular dos 90, tomado de oportunistas marqueteiros, com poucas chances para as canções melódicas, ainda mais sendo inéditas. Nesta fase, parece que a atitude estaria em primeiro plano, sendo o conteúdo completamente supérfluo.

É a lei do Marketing: não importa o que esteja sendo vendido, importa como é vendido. Daí, explica-se a profusão de caricaturas, pois a caricatura vende. Claro que a criação harmônica/melódica continua a existir, mas sem a menor repercussão na grande mídia, a não ser que esteja embutida, por exemplo, num grande lançamento cinematográfico… O consumo popular voltado para a classe D que ascendeu à classe C deu a tônica ao mercado, seja de biscoito, de cigarro, de refrigerante, de carro, de restaurante, de música, de programação de rádio e TV, de tudo. Os produtos populares cresceram vertiginosamente quando uma massa de ex-excluídos se integrou na economia, e a velha classe média foi esmagada, imprensada entre as camadas superiores da elite que não sai de cima e as camadas inferiores de um povão poderosíssimo e recém-chegado, que impôs sua nova ordem e suas preferências.

Tempo de delirante corrupção na mídia, de nichos protegidos na música popular, como pagodes, axés, sertanejos, fervilhante nas periferias mobilizadas, no funk, no rap, no hip hop, no forró, e a classe média, agora sem identidade consciente e sem a velha motivação da resistência ideológica, não teve outro caminho senão aderir aos ditames do povão. Sem poder da classe A dominante e sem a representatividade e o poder do consumo de massa do povão, a classe média passou a gostar do que lhe era oferecido na mídia.

Houve, concomitantemente, uma adesão generalizada (por parte da classe média que conseguiu resistir) aos produtos e serviços importados, a partir da abertura do mercado, nos 90. O chamado produto similar nacional foi abandonado e faliu, só o produto popular, sem concorrência globalizada, permaneceu. Não me cabe aqui julgar onde isso tudo é bom ou onde isso tudo é ruim – acho que a democracia brasileira pode ter começado, enfim, e atingiu as prateleiras do varejo. Há coisas novas, irreversíveis, e excelentes para o Brasil – a integração definitiva da população de raça negra no mercado de consumo, a consolidação do forró, do calypso paraense, o reggae maranhense, o pop maracatu da cena pernambucana, a cena pop de Belo Horizonte, etc…

Na chamada MPB, e no pop, que nos 80 eram típicos de classe média, muitos estão regravando, fazendo releituras, versões, tentando sobreviver num meio hostil. O quadro é predominantemente medroso e conservador na grande cena musical, prefere-se o medíocre seguro em detrimento do ousado com riscos. Há quem ouse, mas não tem ilusões com a grande mídia, principalmente com a TV…

Ainda bem que em outras épocas deu pra se fazer muita coisa bacana e criativa para o povão, mas eu acredito que isso possa voltar, pois tudo é cíclico, a moda precisa da novidade, e a novidade precisa da moda. Com a evolução das pesquisas de mercado e com a aferição constante da preferência da maioria, gera-se, claro, uma sociedade conservadora que não quer a mudança e descarta as inquietações.

Entre um filme de arte, como O Piano, e uma sessão de pancadaria careta, com Jean Claude Van Damme, o povão sempre vai votar na segunda opção. E a indústria cultural torna-se escrava do seu braço científico de poder, a pesquisa de mercado. E não escreve mais história, dificilmente gera mais conteúdo transformador.

Uma maravilha como Alegria, Alegria, com Caetano mudando a história, e um sucesso como Construção – com Chico e sua criação genial em primeiro lugar em todas as rádios – só foram gerados porque houve gente corajosa infiltrada no poder da mídia, e patrocinadores que apostavam no novo, no destoante. E se aquela época foi assim, hoje ela é cultuada como importante, e seus ídolos permanecem como mitos inatingíveis e incomparáveis.

Se hoje Caetano goza de um prestígio inquestionável, é porque um dia ele partiu para cima do óbvio, em seu discurso rasgado no festival no Tuca, com Gal cantando Proibido Proibir sob vaias, e teve espaço para seu discurso. Será que os anos 50, os 60, os 70 e os 80 foram o que foram porque o mundo era mais amador, menos profissional?

Por outro lado, a mídia pensante está migrando para um setor mais interativo, a Rede, onde todos esperamos (e já estamos vendo) uma maior transparência, absorvendo todos os melhores profissionais do bom jornalismo cultural com salários mais dignos e mais liberdade de expressão, e principalmente com mais troca de informação. O tempo não pára.

Já, já, as melodias, harmonias e letras inquietas da nossa rica música popular estarão tocando nos CDs players desse mesmo povão, a partir do momento em que esse povão achar que sua discoteca está monótona, quando essas fórmulas obscenamente espertas cansarem… Será?

Quando o povão se tocar (e para isso não demora) que muitos de seus ídolos apenas cultuavam o ego, o enriquecimento pessoal, a fama vulgar sem a menor preocupação com conteúdo, que investiram todos os seus lucros fabulosos em inúmeras e imensas fazendas de gado com as quais contribuíram diretamente para o desmatamento das florestas e dos cerrados do Brasil, investiram em mansões na Flórida, sem o menor compromisso com a sua comunidade ou com o meio ambiente, que construíram suas milionárias salas de musculação e tornaram-se monstros malhados e artificiais… Talvez tenham se tornado descartáveis e estejam sendo descartados…

Por enquanto, para esse povão recém-chegado ao consumo, a moda ainda é ficar rico, famoso, ser belo, sensual, mas daqui a pouco, por uma simples questão de evolução natural, ou até simplesmente pela moda que muda, o povão também vai querer ser culto e articulado… Será?

Deixe-me voltar para o meu microcosmo… Para não ficar pasmado e estupefato, e principalmente para não perder o prazer de fazer música, resolvi entrar com tudo no terreno dos temas instrumentais, resgatando velhos projetos engavetados desde o tempo da faculdade de Arquitetura e levando isso adiante em novas aventuras sonoras bem pessoais.

Talvez libertando o meu som das letras, da barreira da língua, da minha voz, da imagem, eu consiga ampliar os horizontes para minha música mais profunda…

O verdadeiro artista existe para desafiar, oferecendo para um mundo preguiçoso a incerteza do novo, mesmo que para poucos. Cada um faz suas opções.

Lancei em julho de 2000 um CD de solos de piano, New Classical Piano Solos, com temas delicados e intensos. Esse CD foi inteiramente concebido e executado em meu estudiozinho em São Paulo, durante quase oito anos, e posteriormente lançado por meu selo Verde Vertente Audio, com distribuição da Sony Music.

O fato da Sony se interessar pela distribuição desse trabalho foi um grande incentivo para mim, por ser um produto atípico, totalmente pessoal e ético, num mercado de uma grande mídia apodrecida, corrupta e entregue aos ratos e baratas que compactuam com um esquema fechado à novidade. Também o endorsement da Steinway & Sons foi um must, porque me abriu novas possibilidades e me deu um reconhecimento importantíssimo. Um velho sonho meu se realizava, pois desde que conheci o pessoal da Steinway, em 88, quando comprei meu piano de cauda, eu acalentava a idéia de ter essa parceria.

Sempre, em minhas idas a Nova York, eu ia visitar o Steinway Hall, uma maravilhosa sala em estilo clássico, em plena rua 57, no mesmo prédio do The Economist, um ponto chique para quem é aficionado pelos pianos e pela música de verdade.

Numa dessas visitas, fui convidado para uma festa que marcava o centenário do nascimento de Wladimir Horowitz, uma das maiores lendas do piano de todos os tempos. O que vi e ouvi marcou muito para mim. Uma noite muito elegante, com neve, limusines, vestidos longos, smokings, queijos e vinhos e grandes pianistas reunidos, tocando peças impecáveis, falando sobre o mestre, e ouvindo os depoimentos de Horowitz, onde ele falava sobre suas preferências de compositores e intérpretes, citando – para minha especial emoção – a nossa Guiomar Novaes.

Chorei muito naquela noite. Não que eu me julgasse um deles, mas ali eu me senti em casa, não sei por quê. Daí para frente, eu passei a sonhar em ter a minha noite de gala, um dia. Quando eu mandei meu CD instrumental para a apreciação do Conselho da Steinway, fui chamado para integrar o Roster of Steinway Artists, o que foi minha maior emoção em toda a carreira. Nessa ocasião eu também obtive acolhida para meu projeto de tocar no Steinway Hall, e saí de lá com as pernas bambas… Fiz um mini concerto, para seleta platéia, no dia 18 de Julho de 2000.

Pude contar com músicos da Juilliard School – que tem um Office of Career Placement – uma espécie de escritório de agenciamento de músicos -, que me possibilitou escalar uma excelente formação de 2 violinos, 1 viola, 1 cello, 1 contrabaixo de orquestra, 1 flauta, 1 oboé e um clarinete.

A experiência valeu demais, até pelo trabalhão que as partituras me deram… Mas ficou impecável e esse pequeno ensemble soou maravilhosamente bem. Fizemos um coquetel para poucos e bons convidados, e pronto, um sonho tinha se realizado. Esse sonho era parte integrante do projeto, como se fosse um dos temas…

Concerto realizado, fui convidado pelo Nelson Motta e sua fiel escudeira Maria Duha a participar do Brazil Fest – um show no Damrosch Park, na concha acústica do Lincoln Center, no domingo, 27 de Agosto de 2000, 18 horas. Esse é um show que todo ano leva mais de 10.000 pessoas ao ar livre, na maioria americanos, e do qual muita gente boa sempre participou, encerrando o importantíssimo Lincoln Center Summer Festival. Nosso special guest foi o Emilio Santiago, um doce de pessoa, um grande profissional.

Cantamos juntos Coisas do Brasil (que, aliás, era o título tema em inglês do espetáculo – Things of Brazil), e pude aprender duas obras primas que Nelsinho, o diretor artístico, havia colocado no roteiro – Samba do Avião e Canta Brasil, que ficaram maravilhosas com a excelente banda de Steve Sandberg – baixo, bateria, guitarra, percussão e o Steve no teclado. Minha experiência anterior com o pessoal da Juilliard School também contou muito nessa hora, pois o Nelsinho queria fazer um show chique, de Brasil sofisticado e culto, o Brasil de Ary Barroso, de Tom, Vinicius, Bonfá, da Bossa Nova. Convidada a orquestra, o clima estava perfeito, e o show foi mesmo memorável. O ano de 2000, para mim, estava ganho.

A mudança pra Bahia e os novos planos:
Mas a grande novidade do ano 2000 foi a minha migração total para um novo Brasil, o Nordeste, a Bahia. Em 99, acompanhando a instalação de uma montadora (a Ford) em pleno Nordeste secularmente discriminado pelos diabólicos lobbies de São Paulo e do Rio (que sempre tentaram boicotar o desenvolvimento de um novo modelo, especialmente no Nordeste), eu pirei literalmente.

Ao longo de minha carreira, já venho defendendo há uns 20 anos que o Brasil teria uma nova perspectiva quando emancipasse o Nordeste e deixasse ele crescer. O Brasil precisa espalhar a prosperidade, precisa ser homogêneo. Um dia seria moda ser nordestino.

Isso prometia jamais acontecer, no que dependesse do poderoso comando da FIESP, do empresariado vicioso de São Paulo e do corporativismo governamental dos velhíssimos feudos cariocas. A incipiente e hilária política nordestina sempre deu asas a uma ridicularização sulista, tirando qualquer chance dos estados do Nordeste de terem uma real representatividade na vida nacional.

Só que isto mudou, ou veio mudando paulatinamente, pelo simples motivo que nada fica parado… Parei pra pensar bem, e vi que esse bloqueio não era dirigido só contra o Nordeste. São Paulo isola o Rio, o Rio isola São Paulo, ambos tentam isolar o Nordeste, Minas e Centro-Oeste, da mesma forma que a Bahia e Pernambuco não se bicam, idem o Pará e Amazonas, e que o Rio Grande é isolado por si só, por se achar um Uruguai perdido na Federação, de repente tudo me parecia uma enorme e gratuita bobagem…

Porque eu era livre e descobria que tinha que encarar que eu era cidadão de um país, e não de uma província que eu pensava ser o meu país… Percebi nessa hora que eu vivia em São Paulo pela vontade de meus bisavós, em uma era remota, pois para eles São Paulo tinha um dia representado uma perspectiva de trabalho e progresso.

Mas e agora? Por que eu tinha que seguir uma tradição familiar, apenas por provincianismo ou comodismo? Não tenho emprego fixo, não dependo de um emprego em nenhuma firma em São Paulo. Não tenho fazendas, gado, indústria ou comércio, não tenho nada. Só tenho sonhos, e encontrei terreno fértil.

Amo São Paulo, demais, e vou ser sempre um bastião da paulistanidade encravado na Bahia, com minha maneira de ser paulista, produtivo e acelerado. Na Bahia, não só encontrei acolhida para mim, mas acolhida entre eles mesmos. Não é que o baiano é hospitaleiro com o turista e o imigrante. O baiano é acolhedor com seus próprios irmãos, eles são hospitaleiros entre eles, no dia a dia, parece que há um pacto social instintivo, e isso me encantou.

No final do ano de 99 o prefeito de Camaçari, José Tude, um dos com maior aprovação do Brasil – agora reeleito no primeiro turno, uma pessoa doce e sábia, com sua encantadora e cultíssima Yara, um casal totalmente respeitável e do bem, e ele adorou a idéia de uma Pousada/Estúdio com linha ambientalista, para ser implantado na orla de Camaçari – litoral norte de Salvador.

Passei então a elaborar esse projeto, junto com a assessora Rita, e resultou na concessão de um terreno de 32.000 m2, à beira do Rio Jacuípe, inserido em uma APA importante, do Vale do Capivara, na foz dos dois Rios – Capivara e Jacuípe, entre Arembepe e a Praia do Forte.

Nesse local, no km 30 da Estrada do Coco, uma área de restinga, mangue e floresta tropical, implantaria uma pousada de 16 apartamentos, conjugada com dois estúdios de gravações musicais, um pub, uma horta gigante, um viveiro de aves e nossa maior ambição – uma escolinha de cultura ambiental, voltada para o estudo da horticultura e para a procriação de crustáceos, moluscos, plantas, peixes e aves do Manguezal.

Minha idéia era instituir o escoteiro ecológico nessa região tão peculiar de recursos naturais e que agora vem com tudo para um maciço desenvolvimento industrial e turístico – e eu quero estar nesse lugar, nesse momento.

Tudo o que eu mais gosto e sei fazer, num único sítio: cuidar de 150 crianças carentes de um lugarejo simples e adorável, parceria com a comunidade, cuidar de caranguejos, camarões, de hortaliças, de bromélias e orquídeas, gravar música, receber gente, criar os filhos – em especial minha filha , Paola, que iria num outro sonho de vida…

No Carnaval de 2000, com o andamento rápido do projeto, decidi me mudar para a Bahia, junto com todos os meus sonhos, e aluguei uma casa simples mas adorável em Vilas do Atlântico, município de Lauro de Freitas, a meio caminho do Projeto. Constituímos uma fundação, o Instituto Planeta Água de Pesquisas Educacionais e Ambientais, para gerenciar essa proposta social/ecológica, que não é brincadeira não.

Eu queria implantar um trabalho sério, onde o compromisso maior seria com a enxada, com o homem simples e trabalhador, com as plantas e animais do Brasil, com a música e a poesia, com os valores de uma nova Era. Pretendo trazer para cá os maiores nomes do Pop brasileiro e mundial e todos os fãs serão especialmente bem-vindos na pousada.

No ano passado, eu dizia: Para os fãs, tenho a dizer o seguinte: ano que vem, aguardem muitas outras novidades, pois não vou entregar os pontos tão cedo. Pois bem, aqui vai: agora, conforme prometido, retomo minhas atividades normais.

Depois da excelente experiência com a Sony lançando meu instrumental, recebi um convite irrecusável, de fazer um CD/DVD de 25 anos de carreira, ao vivo, para ser lançado pela mesma Sony, que tantas vezes me prestigiou, independentemente do sucesso, coisa meio rara hoje em dia…

O convite partiu de Ronaldo Vianna, diretor artístico da Gravadora, o mesmo Ronaldo que participou da produção de meu único CD para a EMI, um discaço, que agora coordena com o Bruno, e a nova aquisição do legendário Liminha, a ótima fase do Pop na Sony, com muita liberdade, competência e criação, como devia ser.

A gente combinou uma produção a ser feita pelo Marcelo Sussekind, um grande músico a serviço das melhores produções, uma pessoa muito especial, e um grande profissional, com uma sonoridade conhecida pelos melhores ouvidos, hiper estrelado com discos de ouro e platina…

Depois que o Mariozinho Rocha, com sua sensibilidade e oportunidade me deu a chance de voltar às novelas, com a inclusão da faixa Prontos para Amar na nova trilha da Novela das 8, Porto dos Milagres, sendo tema da excelente Taís Araújo, uma atriz de mão cheia, super bonita e talentosa, tendo um papel especialíssimo na trama, eu fiquei bastante motivado a rever minha carreira, de tantos temas de novela relevantes, e partir para essa produção.

Uma outra música inédita foi incluída, Vai ficar pra mim, também uma bela balada bem ao meu estilo. Na verdade, essas “revisões” com 12, 14 músicas de sucesso e mais duas inéditas seriam uma praga recorrente no mercado fonográfico. As inéditas, um espaço concedido como esmola ao compositor, sempre estariam sendo desperdiçadas, porque o foco estava nas consagradas, óbvias. Isso não foi a primeira e nem a última vez… O “Maioridade”- anos antes – foi a mesma coisa… E o “Intimidade” – anos depois , outra “miragem”. Mais tarde eu me arrependeria desse desperdício, dessa ilusão de uma falsa oportunidade de emplacar uma nova inédita. Caça-níqueis de sucessos deveria ser assumido integralmente, sem falsas novidades…

No mais, o disco era uma revisão mais pop de minha trajetória, com uma superbanda, composta pelos Radiotaxis Wander Taffo (guitar hero), Lee Marcucci (kicking bass) e Gel Fernandes (killer drums), mais as adições de Rubem di Souza (mineiraço talentosíssimo de andanças pop com Jota Quest, Skank, Sideral) nos teclados vintage, o legendário Rick Ferreira nos violões, guitarras e Steel Guitars, e mais o meu velho amigo Lino Simão nas flautas e saxes.

Várias opções musicais foram adotadas pelo grupo, num legítimo trabalho de equipe, como por exemplo a inclusão de Lágrima de uma mulher em versão bem Police, uma revisão funkeada de Cuide-se bem, e, para mim a melhor de todas, Loucas Horas , num arranjo moderno, com uma pegada matadora, mostrando ser uma faixa muito atual.

Paralelamente ao CD que era gravado, foi filmado um material para um DVD, a cargo da TeleImage / Casablanca, com a direção magistral do amigo Magrão, um mestre que utilizou 9 câmeras dentro daquele mesmo Teatro Mars, onde o Capital Inicial e o Ira! haviam feito excelentes trabalhos. Fiquei muito feliz, especialmente com os 15 dias de ensaios exaustivos, com banda e equipe completos, para termos uma execução primorosa.

No dia da gravação, fui dar um tapa no visual, passando uma maquininha de aparar cabelo, e errei na medida da máquina, mais uma vez (já havia cometido o mesmo erro no lançamento do disco Clássicos, cortando então o pouco que me resta de cobertura capilar quase a zero). Desesperado, liguei para minha filha Marietta, que me aconselhou a ir à Galeria da 24 de Maio, e achar um gorro, ou boné, que desse uma visão palatável de como estou agora…

Acabei achando esse boné cinza com que apareço na capa do disco, uma coisa meio Elton John, enfim, é o que pude improvisar… Penso que estou em boa companhia com a falta de cabelo. Como disse o Ronaldo Vianna no dia do Show, aquela cabeleira que você tinha no passado é a única coisa com a qual você não pode mais contar, hoje.

Acho que ele queria me dar uma força… Mas conseguiu, pois nunca me senti tão bem. Botei um tênis vermelho de skatista, combinando tão bem com uma roupa Versace, só coisa do acaso…

O som de piano desse disco é um acinte, um disparate total, trouxemos o Steinway especialmente, lá da Bahia, e tiramos o melhor som de piano que eu já ouvi, incluindo dos mestres do Pop, acho que a banda sente o mesmo em relação às suas performances. O clima desse trabalho foi de uma união e competência que eu tiro o meu chapéu…

O DVD ficou muito especial, também, com cenas gravadas nos locais que foram importantes para mim, em minha formação. Não percam esse registro. Uma pessoa muito especial na consecução desse trabalho foi meu empresário na época, o Junior Valadão, da Agencia Produtora, que fez todo o meio de campo para que eu tivesse esse DVD e esse CD pela Sony, com humildade mútua, e muita amizade, muita competência.

Outros que serão sempre inesquecíveis são o Gama das programações, o Alexandre da Luz, o Delson do palco, o Malanga na retaguarda, pessoas e profissionais que eu choro só de pensar que existem… O Zé Carratu do cenário, um artista sensível.

Na platéia, tantas pessoas queridas, do fã clube, o Edson, o Ricardo, minha filha Marietta e a mãe dela, a tão especial Márcia, o amigo Carlini apareceu, o velho Juraci e a Silvia, minha mãezinha Hebe batendo palmas, minhas irmãs Ana e Heloisa, a Paola dançando no palco no ensaio, tantos outros tão amigos e solidários que eu achei, na época, que até poderia morrer em paz. Mas como a vida segue inexorável, e a criação de novidades não pára, em 2003 achei que seria importantíssimo gerar um novo CD de inéditas, já que há alguns anos eu havia caído na armadilha de um mercado problemático, que fica repetindo os tais grandes sucessos eternamente, em fórmulas ao vivo, em coletâneas, etc…

O DVD com a Sony tinha sido muito justificado, pois era uma nova mídia, com imagens de um excelente show, uma banda excepcional… Mas eu estava precisando dar uma guinada e chegar com novas canções, letras, arranjos, que levassem adiante minha carreira de compositor, mesmo que correndo riscos de não tocar, não vender, esses papos de indústria.

O fato é que muitos discos, ao longo dos quase 30 anos de trajetória, floparam, ou sendo mais brasileiro, encalharam . Que eu lembre, Moto Perpétuo, Ronda Noturna, A cara e a Coragem, Coração Paulista, Pão, Castelos, Outras Cores, Guilherme Arantes (da Playarte) compõe uma invejável galeria de grandes fracassos.

Porém, nem sempre um disco que não correspondeu nas vendas é necessariamente um fracasso, já que sempre tem uma música ali que fica ou que vem a ter uma misteriosa história de ascensão gradativa, cumulativa, e um dia se constata que aquilo com o tempo virou sucesso… Dentro desse universo desses discos, eu destacaria alguns exemplos: Amanhã , Baile de máscaras , Êxtase , A noite , Lágrima de uma mulher , Hora de partir o coração.

Hoje, todos sabem, é palavra corrente que a verba de promoção é o que determina se um disco vai bombar ou não . Um compositor faz músicas como a cigarra canta na árvore, como o castor faz seus diques, como o João de Barro faz sua casa, como as aves fazem seus ninhos, mesmo sem saber pra que é que aquilo vai servir. Às vezes, não serve para nada mesmo. O que não podemos é nos entregarmos ao pessimismo, e não gerar nada de novo só porque a realidade está cruel e não vai tocar no rádio. Que se dane esse esquema armado da covardia e da previsibilidade do sucesso…

Aliás, o que faz mesmo sucesso é a violência, em todas as suas formas. A violência da previsibilidade e a previsibilidade da violência…

Assim pensando, terminei o CD que estava em andamento, com as inéditas que eu vinha juntando nessa safra baiana, dei um acabamento com a banda – Flávio Anchieta no baixo, Duda Lazzarini na bateria, Alexandre Blanc nas guitarras, mais o Silvio De Pieri nos sax e flautas.

As letras, amadurecidas nas caminhadas místicas de Villas, de Jacuipe, entre coqueirais e noites estreladas, refletem o momento dos 50 anos, nas visões do amor e do mundo. Odes à natureza, um olhar crítico sobre a violência e brutalização generalizadas, e principalmente o resgate da inocência que nunca se foi…

Esse é o tema da música Casulo, que acabou incluída na trilha de Agora é que são elas, novela de agosto de 2003. Por força de uma paixão fulminante no carnaval de 2002 , resgatei uma música gravada por Tim Maia nos anos 70, Nosso Adeus, de autoria de Paulinho Zdanowski e Beto Cajueiro, uma curtição extra.

E tem também Luar do amor misterioso, versão de Aprés un Rève, de Gabriel Faurè, que é um de meus compositores prediletos, diretor de Conservatório de Paris no século 19, professor de Debussy e Ravel… Nessa nova fase, tive a valiosa parceria com a Teclado Promoções, do Márcio Gouveia e da Glória Cabral, novos empresários que deram um impulso ao lançamento, distribuído pela Som Livre. João Araújo foi muito receptivo, e o trabalho ficou muito bom.

Fizemos novamente o Bem Brasil, o Domingão do Faustão, o Altas Horas do Serginho Groisman, Raul Gil e vários outros programas de TV. Os shows, motivados com uma nova equipe, uma nova banda, com Décio Crispim no baixo, Fausto Batista na bateria, Alexandre Blanc na guitarra, Silvio de Pieri no sax e flauta, Mila Schiavo na percussão, mais os vocais de Analu Guerra e Eduardo Costa, fizeram sucesso no Canecão, Via Funchal, Teatro Guararapes (Recife), Palácio das Artes (BH), na Concha Acústica do Castro Alves (Salvador), na Praia de Copacabana, entre outros locais do grande circuito.

Na equipe técnica, a qualidade foi privilegiada, com as participações importantes de Duda Salino (iluminação), Élson (som) e a produção competente de Lia Cunha. Foi uma retomada importante, pois vários espaços nobres foram revisitados, com repertório atualizado . Já em 2004, com o novo estúdio em Jacuípe estando operacional, novas músicas, com a inspiração renovada pelo lugar mágico, com uma nova sonoridade, estão a caminho.

A Pousada está sendo construída devagarinho, mas com segurança e sem sócios, com recursos próprios, não havendo riscos nem hipotecas draconianas. Como o financiamento da Desenbahia acabou não saindo, segui adiante com o empreendimento, afinal me consumiram 4 anos de planejamento, projetos, licenças.

Talvez a licença mais importante foi um Termo de Compromisso com o CRA – Centro de Recursos Ambientais, órgão do Estado da Bahia que regula a implantação de empreendimentos em APAs (áreas de proteção ambiental). Com isso, iniciei uma série de replantios de espécimes da flora de mangue e de restinga, o que resultará na recuperação do terreno ribeirinho, onde fica a Escola do Instituto. Logo no primeiro mês da aprovação do PRAD (Plano de Recuperação de Áreas Degradadas) fizemos uma ação de replantio de rizophoras oriundas de Maragogipe, fornecidas pela ONG Vovó do Mangue, e transportadas e replantadas por um destacamento da 2ª Região Militar (Exército).

A Escola do Instituto está sendo palco de um projeto de alfabetização de adultos, parceria com a Associação do Vale Dourado, com a SEMARH , Conselho Gestor das APAs do Capivara e Guarajuba, com SENAI, SEBRAE, SESI, Prefeitura de Camaçari. Também há uma turma de Artesanato, com senhoras da região, durante as tardes.

E, aos poucos, as coisas iam tomando forma… O tempo é senhor da razão.

Em 2006, finalizei a produção de um novo disco chamado Lótus, inaugurando então o estúdio em Jacuípe. A princípio um estudiozinho tacanho, no qual eu ainda contava com a velha estrutura semi-digital dos ADATS. Comprei um ALESIS HD 24, e depois mais outro, que integrados com o Cybermix para automação, eu conseguia mixar ainda na mesa MACKIE. Foi um rito de passagem doloroso, do velho analógico para o novo mundo digital. Com a chegada de Pedro, vindo da Espanha e Inglaterra, e já com curso de áudio feito no Rio, começamos então a modernização do estúdio, comprando um G4 e o primeiro conjunto de PROTOOLS.

Gabriel também já morava comigo, e logo depois chegava Tiago, pra fazer biologia na Bahia. Gabriel acabou se formando em Administração. Tenho muito orgulho dos meus filhos. Com a vinda da Paola, a casa estava completa, e eu tinha a filharada junto comigo. Mais tarde Marietta também viria com a banda Rockers Control, e funcionou como um link para as pessoas começarem a chegar no estúdio. Nesses anos o estúdio/pousada cresceu muito, acompanhando todas as árvores que eu plantei. Voltando ao disco Lótus, ele reunia um pouco de pop, bossa, rock, e o destaque era a música Blue Moon Para Sempre, que tocou bem na Nova Brasil FM.

Nesse disco tinha duas parcerias com o Nelsinho, festejando os 50 anos da bossa-nova. Mal negociado pelo empresário, o disco acabou sendo lançado conjugado com um DVD de sucessos, mais um requentamento de velhos hits, que eu custei a engolir. O resultado, foi uma receptividade fraca, mas continuei fazendo shows para sobreviver, e para manter a estrutura andando aguardando por um momento melhor no futuro. Várias pessoas vieram gravar discos no Coaxo do Sapo, que se firmava como selo fonográfico, com a ajuda de Pedro e Marietta, abrindo muitos contatos com novas e velhas gerações, enfim o sonho estava a caminho.

Márcia, um sonho de mulher, que conheci através de um professor do Instituto, o Douglas, se transformou numa doce parceira para todos os momentos, “completando os neuro- receptores do amor” me dando bastante paz, carinho, e inspiração.
Em 2012 a gente viajaria para Stonington, Connecticut, pra ir buscar o sonho mais antigo da minha vida : um cravo harpsichord ( double Flemish )
Foi a viagem mais encantadora da minha vida.
Vi em Márcia o amor que eu sempre busquei, profundo e verdadeiro.

Esse seria um símbolo do meu amor pela música, um marco onde eu estabelecia que o mundo não iria derrotar o meu sonho.

Eu não iria me transformar num eletrodoméstico , numa jukebox de grandes sucessos do passado…

Do passado eu queria mesmo Scarlatti, Rameu, Haendel, Couperin, e o sublime J.S. Bach…

Pude então, nos intervalos de muitos shows e viagens, ir compondo um novo repertório todo ambientado em Jacuípe. A primeira música que saiu dessa nova safra, foi uma canção para Maria Bethânia, a qual encontrei num aeroporto e conversamos sobre Brincar de Viver, o maior sucesso meu como compositor, a mais executada de ambas nossas carreiras, e que eu estava devendo um novo hit para a abelha rainha. Voltei correndo pra casa e fiz “Você em Mim”, uma canção de amor maduro, plausível para uma pessoa que já tivesse vivido bastante. Esse tipo de canção não é muito comum no mercado, que privilegia sempre a mocidade como tempo do amor. Isso foi uma sacada importante porque nortearia várias canções futuras, onde a passagem do tempo, longe de ser um fardo pra se carregar é um privilegio, e o acervo pessoal da memória é o bem mais precioso que nem mesmo um ladrão homicida consegue nos roubar. Isso viraria letra de musica…

A seguir compus um reggae-fusion meio jazzístico, que mais tarde se chamaria “Cruzeiro do Sul” resgatando o meu lado Djavanesco, misturando Stevie Wonder com Natiruts, num resultado bem legal. Mas os anos iam passando e eu não conseguia uma pausa nas viagens e shows, de sorte que não era possível verticalizar uma produção da forma ideal. Também não era muito do interesse de empresários e clientes de shows que eu parasse, ainda mais pra produzir material inédito. Por fim, numa consulta trivial com o oftalmologista, descobri que estava com catarata, num estagio serio precisando operar imediatamente. Essa operação chamada vitrectomia visaria também limpar o humor vítreo, liquido que preenche o globo ocular. Na verdade, eu não estava era enxergando nada. O incrível é que, não sei se por analogia ou metáfora, após a operação a minha ótica da vida mudou completamente… Me lembro que, ainda na mesa de operação, sedado igual a um Michael Jackson (mas sem o Dr. Murray), vi a minha esperança por um fio, nas mãos milagrosas dos médicos e ate escrevi uma ode em homenagem a pessoas tão corajosas. Pela primeira vez, na vida, percebi a precariedade dos nossos sonhos, e a força do ser interior… Não é preciso dizer que dali saí de forma fulminante para transformar a vida já, com toda urgência que aquela visão me sugeria. Era outubro de 2012, e planejei um disco que seria um divisor de águas. Conversei com a banda, e com a equipe, e no final do ano dei a tão sonhada parada para compor de uma vez, do jeito antigo, dispensando shows e viagens, para mergulhar no estúdio e no meu piano de forma emocionada e integral. Essa atitude é difícil hoje em dia, para todos os artistas. Isso porque o mercado de shows absorve o ano todo, e a inexistência de um sistema fonográfico aos moldes de tudo o que a gente viveu nos anos 70 e 80, tornam a vida dos artistas um inferno de aeroportos, com seus autofalantes anunciando vôos, de poltronas de avião construídas para anões, de redes sociais absorvendo cada pensamento em pílulas sem a menor consistência… Essa é a realidade que permeia o buraco criativo da musica atual… No tempo de Gershwin, Kurt Weill, Coltrane, todos os craques do Jazz, da Bossa, e ate do Rock, iam engravatados para os estúdios, onde o tabaco imperava em nuvens transgressoras, e ali ficavam meses a fio ensaiando e criando a musica maravilhosa do século XX. Hoje, todo mundo é certinho, o tabaco é proscrito, todo mundo malhadinho, conectadinho, com pretensões de modernidade… humm… Não sei não… Prefiro então os vintages…

condicaohumanaE foi pensando assim, que nasceu o Condição Humana, um CD de um artista vintage, que buscasse resgatar a velha sonoridade vintage, com músicos vintages, sem muito medo de parecer superado.

Esse disco rendeu uma repercussão extraordinária, com matérias lindas nos cadernos de cultura, na Rolling Stone e várias outras revistas e no jornalismo da rede. Recebido com entusiasmo, me proporcionou um re-significado na crítica, e foi eleito um dos melhores discos do ano de 2013, ficando aí para a década, com certeza, como um dos mais cortantes e duradouros. O “link” com a nova geração da música se consolidou, isso ajudou bastante. Quatro faixas “viraram” no segmento “Adulto-Contemporâneo” das FMs, o que não aconteceu nem mesmo nas priscas eras das “majors” no auge dos anos 80.., Na minha carreira, logo alçou a condição de um dos três mais importantes – apesar do esquema independente não nos permitir os arroubos de marketing de outras épocas, de outra realidade. A eleição dos melhores do ano na Rolling Stone e o Prêmio de melhor disco, no Troféu Multishow – aqui concorrendo com Caetano ( Abraçaço ) e com o genial Metá Metá – deram um tom de justiçamento, me galgando a um patamar inédito de sucesso de crítica. Isso nunca havia acontecido. Ainda o Nelson Motta me fez uma tocante homenagem na Globo, por ocasião dos meus 60 anos. Vários programas de TV, alguns de extraordinária popularidade, me trouxeram de volta ao grande público, e voltei a ser reconhecidíssimo na rua, coisa que já há tempos acontecia bem mais discretamente, por conta das mudanças óbvias no visual, com o avanço da idade…Um dos fatores também importantes foi um realinhamento na área de Shows, com grandes conquistas em espaços que estavam “perdidos” há muito tempo, como ocorreu no Sesc, em diversas unidades, na Virada Cultural, e ao longo dos anos subsequentes, nas voltas a grandes casas e auditórios com lotação sempre garantida. Com a mesma banda do disco : Carlini, Blanc, Gabriel “Frejat” Martini e Willie Verdaguer, e os vocais de Marietta e Luciana Oliveira, a gente manteve por várias vezes essa unidade, com vasto repertório, cada vez mais comemorativo, ao se aproximar o aniversário de 4 décadas de carreira…

Com essa data redonda no horizonte, comecei a pensar num “pacotão” que resgatasse tudo de uma vez, que amarrasse essa trajetória, e fui procurar a velha Sony, pra sondar a possibilidade de compilarmos uma caixa comemorativa que reunisse todos os CDs. Isso desde o início se apresentava como sendo uma tarefa hercúlea, já que eu havia passado por muitos selos fonográficos : Som Livre, Warner, CBS/Sony, EMI Odeon, Polygram/Universal, Playarte, e finalmente o nosso Coaxo do Sapo… Mas a idéia foi – de pronto- acolhida com entusiasmo pelo Bruno Baptista e pelo Hugo Nunes. Pra começo de conversa, precisávamos vencer uma etapa de negociações e autorizações formais dos detentores dos fonogramas. A seguir, viria a coleta do vasto material em áudio e conteúdos gráficos. Tudo isso consumiu um ano e meio de trabalho, até que Pedro e eu pudéssemos finalizar a entrega à Sony para a confecção da caixa dos 40 anos. Pelo critério estritamente autoral, ficou de fora o “Clássicos” de 94, já que as canções, mega-hits internacionais, são todas alienígenas no meu repertório, e eu me considero primordialmente um compositor. Não sou um “intérprete”, e nunca me propus a ser. Tivemos que escolher apenas um “ao vivo”, pra não resultar em redundância maçante no revisitamento dos “hits”, e eu pessoalmente escolhi o DVD de 2001, com Wander Taffo, Gel, Lee, Rick e Rubinho, no teatro Mars, um disco impecável com produção do Sussekind – esse não poderia ficar de fora. Conseguimos ainda o resgate do Ronda Noturna em master, o que quebraria o jejum de 39 anos desse disco em digital ( só existia nos sebos, em vinil ). A colaboração e empenho das gravadoras foram preciosos, mas tivemos que nos desdobrar pra resgatar áudios – já que muita coisa , na passagem do analógico para o digital, foi reprocessada com compressores, achatada, ou re-equalizada, com realces e supressões de frequências. Mas conseguimos o material bruto original, o que foi uma obra de garimpagem cuidadosa. O fã-clube Lance Legal ( o famoso Fanzine de Varginha -MG ) personificado pelo amigo Edson, foi fundamental , especialmente na coleta dos materiais gráficos. Resolvemos compilar um CD apenas de Compactos e Raridades, reunindo as faixas dispersas que não constaram nos discos regulares de carreira. Com a caixa quase pronta. já indo pra fábrica, resolvi abrilhantar essa caixa com um libreto, contando todas as histórias dos discos, com minúcias e detalhes incríveis, com os quais os fãs pudessem se deliciar…dando nomes, fatos, datas, lugares, tudo o que aconteceu na feitura dos discos… Na hora de finalizar, preferí escrever um manuscrito , na forma de uma agenda de anotações, o que deu um trabalhão e rendeu 72 páginas de caligrafia , o que chegou a doer na pobre mão direita, desacostumada a usar a caneta, ainda mais a caneta digital !!!! Mas ficou uma jóia à parte nesta caixa, a Sony, entusiasmada, vibrou … Porque a minha caixa poderia agora sair com um “algo mais” especialmente atrativo para os fãs e colecionadores !

Paralelamente, eu sentia que há permanentemente uma lacuna importante no mercado fonográfico, que é a publicação das histórias por trás das músicas, histórias de vida e de criação, nem sempre colecionadas pela indústria. A indústria tratou de comercializar o “sucesso”, na forma de produto estritamente fonográfico, muitas vezes restringindo-se aos “highlights”, aqueles 14, 20, no máximo 30 “hits” que receberam o carimbo suspeitíssimo de “sucesso” ( coisa eminentemente relativa ao marketing, e por isso mesmo altamente questionável, porque 100% circunstancial… ) esquecendo-se de registrar o “making-off” das vidas humanas, das batalhas, sofrimentos e alegrias, que estão por trás da música propriamente dita.

Exceto em certos casos de vidas acidentadas, de lendas-símbolo emblemáticas de movimentos políticos, sexuais, ou marcos de transformação de costumes no mundo, via-de-regra, vidas repletas de escândalos ou vicissitudes, muitas vezes com mortes trágicas que ajudam a construção dos “mitos”, a indústria fonográfica não cuidou de valorizar o que se vivia, enquanto se construía um acervo público de materiais comercializáveis.

Na verdade, nem nós mesmos, enquanto estamos lutando na batalha do dia-a-dia, cuidamos de documentar nossa lenda pessoal.

No entanto, nesta nova era das Redes, dos selfies e posts, isso se torna uma revolução significativa : e as pessoas hoje acreditam estarem vivendo uma lenda pessoal , e não estão de todo erradas ! Só que para nós, anti-diluvianos da era do caderno, das partituras, dos acetatos e vinis, do radio AM, dos programas de auditório, esse problema era mais grave.

Claro que os grandes bastiões tombados pelo Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade, como Bob Marley, os Beatles, Piaf, Billy Holliday, Elvis, Michael Jackson, Freddie Mercury, Hendrix ou Janis, os Beatles, os Stones, etc… frequentam largamente esse nobre panteão, nas livrarias, nas bancas de jornais, em áudio, vídeo, cinema, têm suas vidas e aventuras escrutinizadas pela curiosidade minuciosa do público. Mas quase sempre tem ali um componente “apimentado” de fatos momentosos que sirvam de gancho de vendas… Vidas muito “normaizinhas” não interessam historicamente. Alguém fica futucando, por exemplo, a vida de J,S. Bach ? Ora, Bach era um quadradão na vida pessoal discretíssima e regradíssima. Mas a vida dele me interessa cem vezes mais do que a de um Salieri, ou de qualquer outro enfant-terrible mais do que qualquer figurinha fácil da mondanité nas efêmeras Côrtes do Sucesso…No Brasil, temos vários expoentes largamente documentados, com muita honra e justiça por sinal, como Tom, Vinícius, Elis, Bethânia, Novos Bahianos, Caetano, Gil, Milton, e até Cazuza, a cuja obra e memória sua laboriosa mãe Lucinha se devota arduamente …Na maioria dos casos, é a própria família do artista que cuida do acervo e o disponibiliza para a perpetuação de sua lenda. Mas eu noto que muitos dos meus ídolos, cuja saga foi sub-dimensionada dentro dos tempos e circunstâncias em que viveram, permanecem ofuscados no pó da estrada e da história . É o caso do Taiguara, do Johnny Alf, ou no caso da música internacional, da minha adorada banda Captain Beyond…são tantos, que é difícil enumerar aqui. Ainda mais num país precário e desaculturado como o nosso, onde todos os acervos estão sempre caindo aos pedaços, roídos por ratos, insetos, traças, cupins, mofo, maresia, enchentes, incêndios, e – o pior de todos – pelo Poder Público.

Comecei a ficar aflito, porque eu posso, tenho condições e conhecimento técnico, tenho o espaço ideal, uma memória prodigiosa onde tudo que eu viví está vivinho-da-silva, nem sempre a cores, mas mesmo em preto e branco, em sépia, permanece em alta definição!

Esperar pelos 50 anos seria esperar demais – sabe lá o que, na minha maluquice, estarei fazendo ou querendo , daqui a mais dez anos…

E tem outra : o ineditismo. Esse componente eu não podia perder ! Ninguém fez isso, ao menos dessa forma…

Essa maneira de contar as próprias histórias poderia ser absolutamente transgressora, quase subversiva, já que o olhar re-visitante não seria o olhar do diretor, de uma emissora, de uma produtora, ou de entrevistadores condutivos com suas perguntas estruturadas na sua visão e no seu objetivo interno,forçando barras, fazendo as perguntas óbvias de praxe, principalmente brilhando e protagonizando a cena. Nada disso. O que as pessoas mais gostariam de saber é o meu ponto de vista privilegiado sobre a minha vida. Minhas mania. Meu jeito de arregalar os olhos, de conduzir o pensamento com defeitos também : a verdade, a perfeição é sempre ligeiramente defeituosa ! Ninguém sabe mais sobre essas histórias do que eu. Até para uma filmagem convencional, com diretor conduzindo, eu teria que contar tudinho tim-tim por tim-tim… Então porque não contar assim direto pro expectador, só pra ele, e não pra uma galera, pra uma multidão, pra um público num DVD. Eis aí uma outra questão… Me perguntam porque eu não faço um DVD de 40 anos …. E eu me pergunto : pra que ? Pra quem ? Pra ficar passando no barzinho, na pizzaria, na choperia, ao som de talheres e copos, com aroma de manjericão a lenha ? Mas e a atenção do interlocutor não existe mais ?

Melhor do que um livro, seria uma biografia musical em vídeo, cantando e tocando, privilegiando sempre a música, já que a linguagem que eu escolhí pra conversar com o mundo é a música. Portanto, quando as pessoas me perguntam porque eu não escrevo um livro, eu penso com meus botões : bem ou mal, qualquer um que tem histórias pode escrever seu livro, mas e os sons ? Ficam de fora ?: Cedem espaços para as curiosidades do plano pessoal ? Auto-voyerismo ? Os sons seriam irrelevantes porque as gravadoras têm o melhor deles ? Que melhor é esse, se foi tudo tão circunstancial ?

E penso mesmo que as grandes corporações estão migrando pra esse lado, sequiosas por abocanhar o “significado” daquelas vidas, cujas obras conseguiram permanecer… Voilà ! Eis a mina de ouro !

Percebí que o que as gravadoras, as emissoras, as empresas jornalísticas, têm a meu respeito ( a nosso respeito, já que isso vale pra todos… ) é completamente irrisório e miserável, perto do que eu temos dentro de nós, e não estou inclinado a levar comigo o meu conteúdo para o esquecimento.

Sei que vou viver bastante, e ainda mais agora, que larguei de vez o “mardito” cigarrinho de palha….

Um dia sonhei que eu havia morrido. Com o máximo de modéstia e sincera modéstia no meu sonho, falavam de mim no Jornal Nacional, e ao final, após o “Boa Noite” na voz grave do apresentador, a cena fechava e congelava no Maracanãzinho, naquele meu “close” cabeludo, Terra, Planeta Água… e as datas de nascimento e morte se escreviam na tela. A seguir, entrava o comercial..

Vida que segue….Acordei, suando na madrugada…É isso que vai ficar de mim ?

Guilherme Arantes